Conversas

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Conversa – Henrique Vieira Ribeiro

O texto aqui apresentado partiu da transcrição da conversa realizada a 26 de outubro de 2019 com o artista visual Henrique Vieira Ribeiro sobre o tema “Arquivo”, e foi editado de forma a manter a linearidade e a lógica do discurso. Todas as referências aos trabalhos do autor estão assinaladas como ligações às páginas equivalentes do seu sítio na internet.

Introdução

Eu confesso que quando me pediram para vir fazer uma conversa tendo o “Arquivo” como mote, isso levantou algumas questões, no sentido em que eu nunca vi o meu trabalho como um trabalho sobre o arquivo. Eu diria numa primeira instância que o que eu trabalho é sobre uma herança, é sobre um espólio, que não é necessariamente um arquivo. O que me aconteceu foi: dentro da problemática que eu persigo nos meus trabalhos, que tem como fio condutor “macro” uma relação com a condição humana, vou analisando as formas e as estratégias que o ser humano adota no sentido de se transcender, e a fotografia é uma dessas categorias de eternização (ou de falsa eternização), assim como os objetos fotográficos: ou seja, uma coisa é a fotografia, outra coisa é o objeto fotográfico, que é qualquer coisa que contém uma imagem, mas que para além disso, é um objeto. E eu trabalho um pouco também sobre esse tema. Quando eu digo que não trabalho o arquivo é porque não ando atrás de imagens. Por felicidade ou por infelicidade, há cerca de 10 anos, chegou-me às mãos uma herança familiar (herança de material: fotografias, objetos, aparelhos, etc…) Esse momento gerou em mim uma reflexão acerca da finitude das coisas. Por um lado, acerca de uma entropia universal, mas por outro lado, o aceitar e reconhecer que tudo tem um tempo, tudo tem uma duração e isso é algo que não temos como contornar. Ou seja, eu não olho para o trabalho sobre o arquivo ou sobre a memória como uma ideia ou revivalista, ou nostálgica no sentido da saudade. É antes uma análise quase científica, de consciência, quase psicológica. Posto isto, apropriei-me de um conjunto de objetos, fotográficos ou não, e depois acabei por tropeçar também num espólio, num arquivo feito por outrem, outro familiar meu, que foi radioamador durante quatro décadas e eu andei a trabalhar durante alguns anos com esse material, ou seja, no fundo “roubei” o arquivo e depois andei a refletir com aquelas imagens e com aquele material, sobre o que eu poderia fazer com aquele arquivo. E neste momento, em termos de arquivo, tenho alguns trabalhos ainda em curso porque o espólio familiar que eu tenho, não sendo muito vasto, me apontou para uma diversidade de questões e de aspetos que ainda não se esgotaram. 

Os meus trabalhos são trabalhos de apropriação e são trabalhos sobre a memória, porque eu trabalho com artefactos, quase. Ou seja, é quase um trabalho arqueológico, o de olhar para as peças e perceber para onde é que aquilo me leva. Não deixa de ser um tipo de arquivo – subvertendo um bocado a questão, se calhar quem está a produzir o arquivo sou eu, eu é que estou de certa forma a catalogar o trabalho. Eu só trabalho com imagens da minha família, não ando à procura de imagens nas feiras, ou outros sítios onde se compram fotografias velhas. O meu foco é mais do que suficiente no meu espólio particular. Isto porque de certa forma, a memória é feita de factos e de construção, nós partimos dos factos e depois construímos as nossas próprias memórias, e de certa forma estes são os resquícios de factos que chegam até mim, e eu sou de alguma forma o condutor de uma veracidade, se é que se pode dizer isto, em todas estas imagens, em todos estes trabalhos. Se eu fosse comprar fotografias à feira da Ladra, as imagens quando chegam até mim, já são “desalmadas”, para mim, aquelas imagens já não são ninguém, não são nada absolutamente, são imediatamente ficção, não há nada de histórico ou de real naquelas imagens. Eu pretendo que nos meus trabalhos haja esta transição, esta dualidade. 

[Prontuário dos Afectos | Álbum]

Eu andava a ver estas mensagens que se escrevem nesses objetos fotográficos, e interessou-me questionar o que é que leva alguém a mandar uma mensagem a outra no verso de uma fotografia. Isto é o que eu chamo então de objeto fotográfico. Supõe-se que há uma fotografia, mas pode ver-se apenas o verso. Há uma carga ideológica e de intenção em todas estas mensagens. Também me interessou toda a componente estética, a beleza que existe neste papel, neste passar do tempo, nesta tal entropia que existe nestas folhas. Eu costumo apresentar esta: “com beijos e desejos que estudes para seres alguém na vida”. Podem dizer-se estas coisas sem qualquer tipo de peso, pode ser uma mensagem leviana. Mas quando pensamos na carga de intenção que existe numa mensagem destas, tem qualquer coisa de pesado, e isso interessou-me. Interessou-me também esta relação de perda, ou seja, esta imagem chegou até mim, e a pessoa que escreveu isto não faz a mínima ideia. Também há esta componente de que eu só consigo controlar parcialmente a origem das imagens, portanto eu não faço ideia de quem foi a pessoa que escreveu esta mensagem, nem os seus descendentes fazem ideia de que esta imagem está a ser mostrada publicamente, passados não sei quantos anos. Há aqui também esta componente entre o privado e o público que também me interessou explorar neste trabalho.

Primeiro interessou-me juntar este conjunto de fotografias que eu tinha com mensagens num objeto que fosse plasticamente interessante e esteticamente apelativo. Depois interessou-me ampliá-los, portanto isto foi tudo ampliado rigorosamente seis vezes, e passámos da dimensão do objeto pessoal, que é fruído na mão, para qualquer coisa na ordem do poster. Toda a intenção e todo o pressuposto com que estes objetos foram feitos e escritos pela primeira vez, foi todo ele deturpado. Chamei Prontuário dos Afetos a este trabalho, numa ideia de que nestas cartas estão presentes todos os afetos possíveis – é claro que isto é um exagero, nada disso! – mas a verdade é que estão catalogados. Depois, eu organizei as imagens e arquivei-as por tipo de afeto.

Em contraponto com as mensagens escritas, o que fiz foi pegar na parte fotográfica destes objetos e construí um conjunto de rostos. As imagens são feitas com colagem, as peças são únicas, em que cada pedaço que vocês aqui veem é um pedaço de uma pessoa diferente. Há duas coisas que jogam a favor destas colagens: o facto de serem pessoas da mesma família, que podem ter parecenças, e o facto de serem imagens de época e de haver aqui um cliché fotográfico, em que o fotógrafo mandava as pessoas terem uma determinada pose, um determinado sorriso, usava uma determinada luz, e então não foi difícil compor estes cadavres exquis. Mas se calhar são rostos que sem este aviso, se podem tornar credíveis. É estranho, mas eles parecem-me rostos possíveis. Normalmente o que as pessoas pensam é que isto são fotografias da mesma pessoa em alturas diferentes, e não são. Também me interessa aqui realçar é que nenhuma das imagens da exposição é uma fotografia original.

[Horizontes brancos – excerto do vídeo]

Eu tinha a exposição “Prontuário dos Afetos” para fazer, com aquelas partes de trás das fotografias e a Andreia César, curadora da exposição, desafiou-me de certa forma a criar mais uma peça que olhasse para o espólio e que tivesse alguma relação com o resto do trabalho, ou que apontasse quase o caminho seguinte. E o que eu fiz foi este vídeo. Como se pode ver, as imagens, lentamente, vão passando. Isto é feito a partir dos negativos. Mais uma vez, eu recorri ao objeto fotográfico. Digitalizei tudo, tudo o que tinha de rolos, e depois andei num trabalho de paciência, a criar analogias e passagens que para mim fizessem sentido. Todas as passagens que se veem no vídeo foram cuidadosamente feitas e pensadas e recortadas e as imagens são aumentadas ou são diminuídas a meu bel prazer para se encaixarem neste cenário. Eu podia ter pegado em todos os negativos, montado em caixilhos de slides e colocava um projetor de slides a passá-los e estava a revelar o arquivo. Mas o que me interessou mais uma vez era criar uma obra a partir do arquivo. Não ser propriamente uma mostra de apropriação, mas sim, uma reflexão, uma criação. E o que eu estou a fazer aqui são mais uma vez ficções. No fundo, o que estou a fazer são semi-vídeos, vídeos dentro do vídeo, é assim que eu entendo o trabalho, feitos a partir desta sobreposição de imagens, em que eu estou a ficcionar uma série de acontecimentos. Estou simultaneamente a revisitar a história desta família e de todos estes acontecimentos, mas estou a criar um novo acontecimento. É assim que eu o entendo.

Também neste trabalho penso que acaba por haver uma análise de uma quantidade de géneros fotográficos de época – fotografias de grupo, fotografias com crianças, fotografias de férias, paisagens, etc – todos os clichés fotográficos vão sendo abordados. 

No grupo de objetos que me chegou à mão, chegou também um gravador de áudio de fita, com gravações caseiras que eram feitas, muitas delas, das conversas da família. A tecnologia na altura não é a mesma que temos agora, e portanto aquilo tinha algum interesse até para gravar uma série de memórias. Entre outros registos, há uma série de registos de televisão. Eu ouvi uma série de fitas até chegar à conclusão do som que eu queria por no vídeo. Alguns iam ser demasiado ruidosos e demasiado redundantes em relação àquilo que eu estava aqui a fazer, e portanto eu decidi por o som do próprio gravador de áudio a trabalhar, como se fosse quase um projetor de filme, mas não é: é um aparelho de áudio.

Também pretendi que o vídeo fosse algo poético, neste sentido em que trabalho as imagens como se fossem quase desenhos, o aproveitar a parte negra dos negativos, etc. O vídeo é um bocado duro, tem alguns minutos. Algumas pessoas viram-no todo, mas outras não. Mas, enfim, isso faz parte… 

Este vídeo não está disponível no meu site, estão só alguns segundos do filme.  Há aqui um ruído que é particularmente interessante (que está no trecho do vídeo que aparece no site): há aqui uma analogia para mim, com a resistência da vida, com a velhice, que á a máquina a fazer um esforço para continuar a trabalhar.

[Horizontes Brancos – exposição]

Estes trabalhos fazem parte desse núcleo de objetos recolhidos na minha família e sobre os quais eu ainda continuo a trabalhar.

Em 2018 fiz esta exposição, a que chamei Horizontes Brancos, com o projetor e o vídeo de que falei anteriormente. Eu decidi que devia começar a desafiar a exposição logo a partir dos autores, ou seja, eu ponho, por exemplo “Henrique Vieira Ribeiro + Alfredo Antunes”, em que Alfredo Antunes foi a pessoa que tirou as imagens originais. Foi um statement que eu quis assumir nesta exposição, porque apesar de tudo, eu aqui estou a mostrar as fotografias de onde tirei o trabalho, portanto achei que era correto, no mínimo, falar do autor inicial, que apesar de já não estar vivo, está cá e fica para a posteridade.

Neste trabalho voltei ao tal espólio (eu chamo espólio, mas pode ser herança ou arquivo) e andei a pegar numa série de slides (novamente o objeto) – que mandei digitalizar com a melhor qualidade possível. Eu gosto da ideia da contaminação com o desenho, apesar de eu estar a trabalhar com material fotográfico, interessa-me muito a relação do material fotográfico com o desenho. Foi uma das coisas que me atraiu nestas imagens: as marcas que se veem e que são a tal entropia,  a humidade, o pó que o slide contém, mas que visto na impressão original, percebe-se que isto é um “riscadinho”, é quase um “hiper-desenho”, que é um conceito que eu persigo. Foi criado há cerca de uma década em Inglaterra e há uma série de curadores que estão a trabalhar um conceito em que o desenho é trabalhado de maneiras alternativas que não sejam o material sobre papel. Portanto, isto é uma forma de hiper-desenho, vamos dizer assim. Eu entendo o meu trabalho também como tal. 

Focando-nos mais na parte fotográfica e naquilo que se mostra, interessavam-me várias coisas: primeiro esta ideia de desvanecimento natural, em que as imagens estão a desaparecer por si só: não só são fotografias feitas na neve, mas em cima do cenário branco, elas estão mesmo a perder a imagem. Depois há outra ideia que me interessa muito aqui, que é que ninguém está a olhar para a câmara, portanto há aqui um voyeurismo de quem tira as imagens. Em todas estas imagens, eu intervenho, ou seja, eu estou a adulterá-las. Há uma única imagem em que há duas personagens a olhar para a câmara, mas mesmo assim, o rapaz não tem rosto, é quase fantasmagórica, talvez. E para lançar esta pista na exposição, eu peguei em dois slides originais e coloquei em visualizadores de slides e a pessoa olhando para eles conseguia ter a imagem original, e na parede estava a imagem que eu alterei. Eu tenho seis imagens expostas, e revelo duas originais. Todas as outras ficam na incógnita, ou seja, são os espetadores que têm que preencher (ou não) as possíveis alterações que as imagens possam ter tido. Portanto, não revelo tudo, revelo apenas duas das seis. Pareceu-me uma forma interessante de mostrar que as imagens não eram uma apropriação simples, mas também não quis dizer “isto é o antes e isto é o depois”. 

Isto também é interessante, porque são fotografias que vão sendo deterioradas pelo tempo, que foram tiradas por outra pessoa, e eu, ao pegar na fotografia, deixo de ter aquela reverência, quase que profano a fotografia. Estou a profanar porque esta ideia de memória e manutenção da fotografia enquanto condutor de um acontecimento, é uma coisa intocável, quase sagrada e eu não acho nada que seja assim, acho mesmo que há uma construção, e então dentro dessa construção, acho que tudo é permitido, e acho que isso é desejável. Há uma vertente de fotografia documental, e existe um trabalho artístico que é qualquer coisa que tem a ver com pensamento e com gerar novas coisas, e não simplesmente mostrar as que já existem.

Outra peça que fiz foi, com uma pequena caixa de luz, sobrepor alguns slides. No fundo o que eu estou a replicar é a estratégia que fiz no vídeo, portanto, ter uma sobreposição de imagens, mas no vídeo umas vão desaparecendo e outras vão aparecendo, e aqui estou a assumir a sobreposição. Interessou-me também em termos analógicos, em termos de objeto, fazer este ensaio. A sobreposição de dois ou mais slides vai criar quase uma profundidade, não direi mesmo uma estereoscopia, mas uma coisa parecida.

[Excerto do vídeo “A Casa”]

Há inicialmente um grande núcleo de trabalho, que se chama “A Casa” (foi a esta casa de família que eu fui buscar estes objetos, estas fotografias, os slides, etc…) e em 2012 finalizei o vídeo com esse título. Esta foi uma casa habitada durante 50 anos. A minha avó saiu da casa doente um dia e ficou durante dois ou três anos sem lá voltar. Acabou por falecer depois, mas durante estes dois ou três anos, a casa esteve num estado de suspensão. Imaginem que vocês saíram hoje de casa, para voltar ao fim do dia, mas por qualquer razão não voltaram, e a casa ficou lá ninguém lhe mexeu. Eu apanhei a casa neste estado de espera, com o acumulado de pó, de humidade, etc…, e depois de fazer um conjunto de fotografias, decidi, com o tempo que tinha livre, filmar. E a verdade é o que filme acabou por ficar resolvido primeiro que as fotografias, que ainda não foram mostradas, só o vídeo é que já tem vida própria. E mais uma vez, eu não estou aqui a apropriar-me de um conjunto de imagens, portanto não posso estar a falar de um arquivo, mas na verdade estou a apropriar-me da casa, estou a apropriar-me do espaço todo enquanto matéria para gerar imagens, que em complemento com todas as imagens apropriadas, fazem um todo. 

Quando fiz o vídeo, este tinha uma carga emocional, foi uma forma de luto, quase de despedida de um lar, mas hoje em dia o que isto representa para mim é que tudo tem um tempo, tudo tem um prazo. Georges Perec, num livro que eu aprecio muito: “A Vida Modo de Usar (que de uma forma muito geral, trata da estrutura de um prédio, com todos os seus apartamentos e das várias gerações que os habitam e do seu emaranhado de relações, e há uma ideia da duração da vida, de prazo, do tempo) faz uma descrição de uma rua de Paris que em 200 anos se transforma – desde a rua que desaparece, aos prédios que se substituem todos, às várias gerações… Nós conseguimos transmitir uma ideia, se calhar até à altura dos nossos avós, e a partir daí já não temos memórias, e assim todas as gerações vão sendo cíclicas.

[Projeto CT1LN]

[parte I – As Viagens de Paulo V.]

Eu sabia que tinha um familiar que tinha sido radioamador durante uma série de anos, não tinha era percebido que para mim, isso poderia ser uma prática interessante para eu me dedicar, tanto que trabalho nessa prática desde 2014 e só acabei agora, em 2019, com uma exposição interativa. Este trabalho começa e acaba exatamente num móvel, o móvel arquivador de Paulo V., que é o nome que eu dou ao Paulo Vieira. Há uma intenção da minha parte, a de distinguir a personagem real da ficcional. Paulo Vieira é o radioamador que teve esta atividade, Paulo V. é a personagem que eu crio e que eu vou tentar eternizar (enquanto dure…). 

Eu fiz este trabalho em duas partes por duas questões: primeiro, por uma questão de gestão do tempo e depois, por uma questão de gestão de custos. A primeira parte, em termos concetuais, aponta para um mote, para uma razão e não para uma conclusão. Eu deixei a conclusão para a segunda parte, que é exatamente o tal “Arquivista”.

Sobre os contactos de radioamador: imaginem estar com rádio ligado, com as antenas ligadas e à procura de pessoas com quem contactar. E cada contacto estabelecido deve entrar para o livro de registos, em que é tudo legal e tudo controlado. Ele tinha uma série de livros – 14 ou 15. Cada entrada no livro corresponde então a um contacto, contacto esse a quem ele depois enviava um cartão dele, e essa pessoa, por sua vez, enviava-lhe um cartão dela. Os códigos, tal como o CT1LN, são o equivalente àquilo que são hoje em dia os IPs. 

Interessou-me olhar para alguém que está durante horas, sozinho, a fazer este tipo de atividade durante 30 e tal anos. Há ali um colecionismo, aqui sim, com um arquivista associado, que acumulava todos estes cartões. Posso dizer que ele tem cerca de 90.000 contactos feitos, e desses 90.000 contactos, acumulou cerca de 30.000 cartões. Então resolvi fazer uma série de artefactos, que fossem de certa forma, a tal ponte documental dentro do projeto, ou seja, existe uma base documental e depois existe a outra base, mais criativa. Para a parte documental, criei dois áudios, com conversas com ele, que foram apresentadas na exposição como duas imagens que tinham associados dois ficheiros áudio. Fiz também uma série de fotografias a objetos que tinham a ver com o início ou com o decorrer da atividade. Estas peças são documentais e demonstrativas da atividade e dos aparelhos: o conjunto de livros de registos, o tal livro de registos aberto, que funciona como um díptico, um manual de comunicação e uma série de artefactos, de aparelhos, o primeiro certificado que ele teve, e a pasta que contém todos os certificados. Eu dividi este projeto em duas partes – As viagens de Paulo V. e o Arquivista – e este objeto [o móvel de gavetas] foi usado também na segunda parte. Dentro destes objetos, alguns são introduzidos por mim, ou seja entram numa ideia de mentira… Eu vou confessar uma coisa: eu adorava que este trabalho todo fosse mesmo uma mentira, eu gostava de ter inventado isto tudo.

Fiz também uma série de desenhos, em que cada desenho corresponde a um dia de comunicações dele, que para mim significam viagens virtuais, que hoje em dia fazemos na internet com grande facilidade. O arquivo serviu de base para eu fazer estes desenhos.

A exposição começa pelos desenhos, os artefactos de que já falei e, depois tem uma instalação em que eu refiz doze daquelas gavetas e iluminei-as todas com LED, que estão ligados a um hardwin, uma placa informática, que vai emitir, com a luz, o código do Paulo V. em morse, aquilo que ele lançava de cada vez que ligava o rádio. Qualquer coisa como “CT1LN… CT1LN… CT1LN… Aguardo resposta… etc…” Esta peça faz o mote para a quarta e última peça deste primeiro grupo de trabalhos.

Para esta instalação, peguei ainda num globo terrestre que era meu, da minha infância, e resolvi tentar reproduzi-lo à imagem daquilo que o Paulo V. fazia com a sua imagem através do rádio. Tentei reproduzi-lo através de espelhos, ou seja, criar uma instância de ubiquidade ao globo, para que ele se reproduzisse eternamente. Mais uma vez, é claro que isto é tudo fictício, e é falso: ele não está reproduzido eternamente, está reproduzido enquanto os espelhos aguentam essa reprodução. O globo tem uma particularidade, que é uma pequena luz, que serve para alterar a latitude e a longitude, e que eu coloquei no sítio em Portugal, no Algarve, de onde ele fazia as suas emissões, e é esse ponto que eu tento replicar através dos vários espelhos.  Claro que toda esta ideia de arquivo, relacionada com este trabalho, e de biblioteca, levou-me inevitavelmente ao universo do Jorge Luis Borges, e nesse sentido também foi inevitável também pegar na ideia do ponto… Ele fala no Ensoph, um dos seus contos, de alguém que está numa sala completamente escura, e que passado algum tempo a olhar para um determinado ponto da escada, via um pontinho de luz. E ao fixar esse pontinho de luz durante algum tempo, via tudo: via o Universo, via o passado, o presente, o futuro, etc… É muito interessante a descrição poética e eu acabei por ir atrás dessa descrição, e criei este objeto.

[Parte II – O Arquivista | Exposição]

O móvel servia como mote para a exposição, e isso para mim é muito interessante, porque este móvel é mesmo o início e o fim de todo este trabalho.

Além deste móvel, durante 5 anos, eu e o Tiago Rorke, que é artista, mas que trabalha em informática, criámos um programa e um interface para esta exposição interativa. O que eu fiz foi fotografar um conjunto de cartões que o Paulo V. recebeu. Foi criada uma base de dados em que eu cataloguei cada um dos cartões. E graças mais uma vez ao Georges Perec, e ao mesmo livro de que já falei, em que ele tem uma passagem em que em alguém, a determinada altura, recebe 500 envelopes de todas as partes do mundo, e todos os envelopes têm os seus selos particulares. O dilema da personagem era como organizar aquilo: por data? Por local? Por cores? E ele achava que todas as formas seriam insuficientes. Até que se apercebeu que se escolhesse 3 ou 4 ou 5 ao calhas, todos eles tinham 2 ou 3 pontos em comum. E para mim, ler isto foi o “click” para resolver esta parte da instalação. Então, fotografei cerca de 3.000 cartões, e depois fiz uma série de indexações, ou hashtags a cada um desses cartões. Cada um cartão tem uma determinada cor, data, local, ilustração… e o que eu fiz foi andar um a um, a escrever numa base de dados, todas essas informações. Foi depois criado um interface com o microfone original do Paulo V. – o microfone foi “descascado” e foi criado um microfone atual, mas com a “máscara” do antigo. A sala tinha uma parte de trás uma uma parte da frente, feitas por duas projeções. Havia uma projeção traseira com listas, que iam mudando, o plinto com o microfone e com o ecrã LED, e uma uma projeção frontal, onde, por voz, cada pessoa interagia com esta base de dados. Eu acabei por criar uma certa poesia virtual com cada um dos assuntos, ou com cada uma das listas. O que eu quis foi que cada um ordenasse esta coleção da maneira que entendia. Imaginem por cores: vocês carregavam no botão e diziam “vermelho”, e aparecia na projeção frontal uma composição com os cartões vermelhos. Por exemplo, podia haver 50 cartões que eu cataloguei como “vermelho” e a projeção mostra 12 de cada vez, e vocês podiam navegar à vontade por esses 50 cartões. Havia uma forma de comutar entre vista em mosaico, ou ver cartão a cartão. A aplicação funcionava da seguinte forma: através de uma ligação à internet, havia um reconhecimento de voz (que tinha que ser numa língua, e escolhi o português, portanto era necessário falar em português) que dava o retorno das palavras introduzidas. E havia aqui quase uma  revisitação da ideia de radioamador, novamente a tecnologia a entrar para dentro do trabalho. Era possível fazer uma pesquisa por datas, por código – o alfabeto militar internacional -, por cores, por ilustração, que é a parte subjetiva, ou seja, tudo isto sou eu que olho e que arbitro, e por fim, por locais. A projeção das listas era um vídeo, e as palavras apareciam e desapareciam. Essas palavras eram o conjunto de possibilidades de organização deste vasto arquivo. 

Conclusão

Eu só trabalho a memória dentro de um espólio familiar meu, que me é próximo. No fundo, é um trabalho em que eu acabo por ser o último fio condutor do que estas imagens possam trazer do real, ou de uma história real. Tenho em curso uma série de trabalhos relacionados com este ambiente (não com este radioamador, que é um trabalho que está concluído), a partir de objetos de antepassados que me chegaram à mão e que eu olho e reflito. O que esse espólio me suscitou, também por causa das minhas leituras e de outros autores, foi uma relação com uma ideia de transcendência, sempre esta ideia de o Homem ultrapassar as suas limitações, e a fotografia é uma estratégia de manutenção dessa tal memória, dessa tal tentativa de eternização, ou pelo menos de prolongamento da vida para além da morte. Seja porque nós deixamos as nossas fotografias aos outros, ou porque os outros mantêm fotografias dos entes que morreram, e as mantêm presentes, tudo isso é uma estratégia de eternização e é aí que se enquadra o meu interesse. 

Eu trabalho sobre artefactos, ou seja, se tivermos um fogo, eu trabalho com o que resta do incêndio, e associo os restos por categorias, sejam mensagens fotográficas, sejam slides, seja o que for, eu estou a associá-los em conjuntos, em vizinhanças e estou a assumir o caminho por onde esses artefactos me levam. 

Na verdade, estou a encenar ou a ficcionar sobre o espólio, mas acho que a maior encenação é a do espetador. Eu não mostrei aqui nenhum álbum de família, o que eu mostrei foram trabalhos que têm como origem uma série de imagens e de objetos dessa natureza. Eu estou a ficcionar, mas não estou a contar uma história, estou a ficcionar plasticamente, e o que eu quero é que o espetador quando olha para o meu trabalho, crie as suas próprias ficções, que é o que eu penso que todos os autores querem que as pessoas façam quando deparam com os seus trabalhos.

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